Morna é Património Imaterial da Unesco

12 Dezem­bro 2019

Quis, neste dia sin­gu­lar na his­to­ria da nos­sa cul­tura, par­til­har este pequeno tex­to escrito em 2015

Lem­brar tam­bém o empen­ho e as ini­cia­ti­vas da Celi­na Pereira des­de o iní­cio neste proces­so de can­di­datu­ra da mor­na, e a sua con­tribuição à preser­vação e divul­gação da mesma.Obrigada Celi­na

A mor­na é sem dúvi­da um sím­bo­lo Nacional, um fac­tor de iden­ti­dade e de comunhão de sen­ti­men­tos. Expres­sa o que somos, o que sen­ti­mos, e con­ta a nos­sa his­to­ria; as secas a chu­va, a fome, as par­tidas, os amores e desamores, a morte, assim como o nasci­men­to, a esper­ança, os heróis, a cel­e­bração da vida, etc.

Pos­sivel­mente nasci­da na ilha da Boa Vista, roman­ti­za­da pelo Eugénio Tavares e enrique­ci­da pos­te­ri­or­mente pelos meios tons do B.leza, a Mor­na surgiu com uma estru­tu­ra sim­ples e um bati­men­to mais acel­er­a­do, ten­do mere­ci­do ao lon­go do tem­po um enriquec­i­men­to har­móni­co. A Mor­na con­tin­ua a ser em Cabo Verde e em qual­quer parte do mun­do um fac­tor de comunhão do sen­tir cabo-ver­diano.

Eu nasci e cresci a ouvir a mor­na, no Min­de­lo, pela voz da min­ha mãe que gosta­va de a can­tar, e a quem muitas vezes acom­pan­hei ao piano.utilizando a mão esquer­da na mar­cação do rit­mo como apren­di ven­do a Dona Tutu­ta, e na voz dos diver­sos can­tores e músi­cos ao vivo, ou através das rádios locais de São Vicente. Não é por aca­so, que sem saber como, dei por mim na ado­lescên­cia a can­tar e a con­hecer as letras de um grande número das mor­nas que sem­pre se ouvi­ram em Cabo Verde.

Com ela chor­ei e cur­ti as min­has primeiras desilusões e sep­a­rações amorosas, prin­ci­pal­mente nos últi­mos 15 min­u­tos da rádio Barlaven­to, no pro­gra­ma “Músi­cas da Nos­sa Ter­ra”, e na queri­da voz do Bana. Com ela exor­cizei as dores da sep­a­ração da família e da ter­ra nos lon­gos anos em que andei por ter­ras estrangeiras e dis­tantes. Com ela embalei os meus fil­hos e mostrei aos curiosos um pouco da nos­sa alma de ilhéus. Gan­hei o gos­to de inter­pretá-las, nor­mal­mente de olhos fecha­dos, numa espé­cie de intro­specção prazen­teira, viven­do a car­ga emo­ti­va e expres­si­va dos poe­mas.

Os temas são tão diver­sos como o amor (Força de “kretxeu”), as par­tidas (Hora di bai) , a morte (Eternidade bo e triste), as sep­a­rações (Mar de Canal, os ele­men­tos da natureza tais como,o mar,a lua e a ter­ra,( Lua nha teste­munha, Lua boni­ta, Mar azul) , amor patrióti­co, quo­tid­i­anos, que num total con­seguem cri­ar quadros de ima­gens que nos per­mitem o que os autores e com­pos­i­tores nos trans­mitem.

Segun­do ten­ho enten­di­do, no iní­cio, a Mor­na era um pouco satíri­ca e com letras até incon­ve­nientes. Tal é o caso da Maria Ade­laide que por ter uma melo­dia tão boni­ta mere­ceu ser rescri­ta por out­ros autores para val­orizá-la. Os temas foram diver­si­f­i­can­do-se de acor­do com as épocas e os momen­tos históri­cos, e assim, a Mor­na sendo rein­ven­ta­da e enrique­ci­da ao lon­go das ger­ações. Sem­pre foi, tam­bém, um pre­tex­to para um bom momen­to musi­cal, uma “tocati­na”, uma ser­e­na­ta, um bom” pé de txoro” (choro) de saudade da ter­ra ou um bom “pé di bad­ju” (pé de dança) no peito dum “kretxeu” ou de um apaixon­a­do, tor­nan­do-se sem duvi­da, a expressão máx­i­ma do nos­so sen­tir.

A Mor­na faz parte da nos­sa Vida e é o nos­so ele­men­to iden­titário por excelên­cia. Nasce­mos e aos sete dias, no ”guar­da-cabeça” (cer­imó­nia tradi­cional ded­i­ca­da à pro­tecção dos recém nasci­dos) can­tam-nos “Ná o mini­no Ná” (mor­na que con­tem uma frase de emba­lo), mor­re­mos e can­tam-nos “Eternidade bo e triste” ou “Hora di bai” ou “Par­ti­da”.
Pan­tera ciente dis­so escreveu ”Mor­na quim conche inda mini­no na bu raga­zo, na hora di dis­pi­di­da N’ kre tam­bém uvibu oh mor­na” ( em por­tuguês “Mor­na que eu con­heci ain­da cri­ança no teu regaço, na hora da des­pe­di­da eu quero tam­bém escu­tar-te ó mor­na”).

O Hino de Cabo Verde pode­ria ser uma mor­na.

Não estudei com­posição mas ten­ho o meu instru­men­to, a Voz. Eu com­pon­ho de Voz. Há quem o faça com a gui­tar­ra, ou com o piano, mas eu faço‑o com a Voz. Daí poder fazê-lo na hora da cam­in­ha­da, nos afaz­eres da casa ou sim­ples­mente a con­duzir. Por isso ven­ho a cor­rer para casa e gra­vo. Com­por de voz dá-me a liber­dade que pre­ciso para expres­sar a min­ha músi­ca e as min­has mor­nas vivem do amor, à ter­ra, à chu­va ao mar à lua, às cri­anças. Sin­to que em todas as mor­nas com­postas em Cabo-verde o amor está sem­pre pre­sente.

Quan­do me per­gun­tam como vejo a músi­ca tradi­cional de Cabo-verde, eu respon­do que não ten­ho medo do futuro. Porque passe o que passe, e ven­ham as influên­cias que vierem, quan­do, por exem­p­lo, num con­cer­to eu entoo uma mor­na como a “Sina de Cabo-Verde” de Gabriel Mar­i­ano e Jac­in­to Estrela, e um auditório inteiro a can­ta e a cel­e­bra, eu recon­heço-me em cada um dos pre­sentes, e é dessa mág­i­ca comunhão que vem a min­ha certeza de que enquan­to hou­ver um Cabo-ver­diano na ter­ra, exi­s­tirá a Mor­na.

O meu pai era Alen­te­jano e veio para estas ilhas que o adop­taram e tornou-se um de nós. Pelo seu sen­tir, pelos laços famil­iares que criou e aci­ma de tudo, porque nun­ca nos impôs a sua cul­tura. Gosta­va tan­to das mor­nas, que quan­do pas­savam na rádio, prin­ci­pal­mente na voz da Arlin­da San­tos de quem era fã, éramos obri­ga­dos a faz­er silên­cio, sob pena de ouvir um calu­da. Apren­di que a Mor­na, tam­bém vive de silên­cios.

Hoje é um dia muito boni­to, a Mor­na já é de todos nós,mas aci­ma de tudo é um dia cheio de futuro.

Parabéns Cabo Verde!
Tété Alhin­ho